Longs, Original

Os credos do novo testamento

É novamente páscoa!

A páscoa é originalmente uma festa judaica, mas foi adoptada pelos cristãos como um momento de celebração da morte e ressurreição de Jesus. A última ceia, mesmo antes de Jesus ser preso e condenado à morte foi a celebração da páscoa judaica.

Celebramos a morte e ressurreição de Jesus, o facto mais importante do cristianismo.
Se Jesus não ressuscitou então o cristianismo é falso.


As principais fontes que afirmam este facto são os documentos do novo testamento, mas este é composto por vários livros, redigidos em datas distintas. O senso comum diz-nos que quanto mais perto está um acontecimento do seu relato, maior a probabilidade de ele ser fiel à realidade, pois menos tempo houve para embelezamentos lendários e mitológicos.

Quais as datas de composição dos vários livros do novo testamento?
Em números redondos, os quatro evangelhos são datados de 40 a 65 anos depois da crucificação, sendo Marcos o mais antigo e João o mais recente. As cartas do apóstolo Paulo, que constituem uma boa parte do novo testamento são todas anteriores a isso. Paulo morreu cerca de 40 anos depois de Jesus. Não há consenso completo sobre as datas exactas, mas estamos com certeza nas décadas correctas.

Será que 40 anos depois dos factos é perto o suficiente?

Vamos fazer três comparações com outras figuras históricas:

  1. Buda viveu no século VI antes de Cristo. Os textos budistas mais antigos que temos datam de 500 a 900 anos depois do nascimento de Buda.
  2. Maomé viveu no século VI depois de Cristo. A sua biografia mais antiga data de mais de 100 anos depois da sua morte, mas não a temos. Os registos mais antigos sobreviventes datam de mais de 200 anos depois de Maomé
  3. Alexandre o grande viveu no século IV antes de Cristo. A fonte de informação mais antiga que temos sobre a sua vida data de 300 anos depois dos factos

Podemos ver que o novo testamento está bem posicionado para ser uma fonte fiável de informação no que toca a estar perto dos acontecimentos. Há cartas do apóstolo Paulo que datam de 20 anos depois da morte de Jesus.
Mas será que podemos chegar mais perto?

Os credos do novo testamento

Nas cartas de Paulo encontramos pequenas passagens que têm uma formulação diferente do resto do texto envolvente. São formulações credais, construídas de uma forma que ajude a recitação e memorização.
Estes credos têm um estilo diferente do resto do texto das cartas, e em alguns deles, Paulo afirma que os recebeu. Por esta razão muitos acreditam que uma boa parte destes credos (se não todos) são pré-Paulinos.
Estes credos são provavelmente o registo histórico mais antigo da cristandade e são uma janela única para o conteúdo da proclamação dos primeiros cristãos.

Qual o conteúdo desses credos? Vamos ler 4 deles

CREDO 1

A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação.

Romanos 10:9,10

Este credo afirma claramente a ressurreição, mas também identifica Jesus com o próprio Deus dos judeus, YHWH ou Jeová. Paulo chama a Jesus “Senhor”, e 3 versículos depois cita um versículo do velho testamento em que o nome de Deus é traduzido por Senhor.

E há de ser que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo;

Romanos 10:13 ou Joel 2:32

CREDO 2

Acerca de seu Filho, que nasceu da descendência de Davi segundo a carne, declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dentre os mortos, Jesus Cristo, nosso Senhor

Romanos 1:3,4

Neste credo Jesus é chamado Filho de Deus e são afirmadas a sua humanidade e a sua ressurreição

CREDO 3

Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.
Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

Filipenses 2:6-11

Neste credo, Jesus é afirmado como um ser que pré-existia a sua encarnação numa forma divina, mas decidiu humilhar-se ao ponto de ser condenado à morte injustamente. Apesar disso Deus inverteu a sua humilhação e exaltou-o acima de toda a criação.

CREDO 4

Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras,
E que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.
E que foi visto por Cefas, e depois pelos doze.
Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos, dos quais vive ainda a maior parte, mas alguns já dormem também.
Depois foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos.
E por derradeiro de todos me apareceu também a mim, como a um abortivo.

1 Coríntios 15:3-8

Este credo é muito interessante pelo facto de afirmar a ressurreição ao mesmo tempo que enumera as suas testemunhas oculares

Em resumo, os primeiros cristãos imediatamente após a morte de Jesus afirmavam a sua divindade, pré-existência, morte pelos nossos pecados, sepultamento e ressurreição. Estas ideias não foram desenvolvimentos posteriores que demoraram anos a cristalizar. São os factos base do cristianismo desde a sua génese.

Mas quão cedo conseguimos datar estes credos?
É impossível datá-los precisamente. No entanto podemos fazer boas estimativas. Conhecendo um pouco da história do apóstolo Paulo sabemos de dois momentos em que ele teve contacto com a igreja em Jerusalém, o local de todos estes acontecimentos.

Três anos depois da sua conversão, Paulo encontrou-se com Pedro e Tiago. Catorze anos depois disso deu-se o primeiro concílio de Jerusalém cerca do ano 50. É possivel que Paulo tenha recebido estes credos dos outros apóstolos num destes momentos. As datas exactas da vida do apóstolo são disputadas mas não por muito. Podemos considerar uma margem de erro de cerca de dois anos. Temos portanto a certeza que estes credos já estariam completamente desenvolvidos 20 anos depois da morte de Jesus.

No entanto se estivermos dispostos a especular um pouco, podemos dar mais um passo e tentar datar a própria criação destes credos. Eu afirmo que mesmo antes do próprio apóstolo Paulo se converter, entre dois a cinco anos depois da crucificação, estes credos já estariam em circulação entre os crentes. Para suportar esta afirmação vou dar dois arugmentos.

Em primeiro lugar, é afirmado no livro de Actos que Paulo perseguia a igreja, prendia, ameaçava e até consentia na morte dos cristãos.
Por que razão estava Paulo e os religiosos Judeus tão zangados com os cristãos? Seria por eles afirmarem uma ressurreição? Não. Paulo como fariseu aceitava a ressurreição. Seria por eles afirmarem a vinda do messias? Não. Isso seria algo bom para um Judeu. No entanto, algo que um judeu fiel não poderia aceitar era a afirmação que um homem era divino. Jesus como Deus era inaceitável, e aos olhos de um fariseu uma blasfémia punível com morte.

Em segundo lugar, podemos ler que imediatamente depois da sua conversão Paulo pregava a mesma mensagem cristã que tornava digno de morte quem a afirmava.

E logo nas sinagogas pregava a Cristo, que este é o Filho de Deus. E todos os que o ouviam estavam atônitos, e diziam: Não é este o que em Jerusalém perseguia os que invocavam este nome, e para isso veio aqui, para os levar presos aos principais dos sacerdotes?
Saulo, porém, se esforçava muito mais, e confundia os judeus que habitavam em Damasco, provando que aquele era o Cristo.
E, tendo passado muitos dias, os judeus tomaram conselho entre si para o matar. Mas as suas ciladas vieram ao conhecimento de Saulo;

Atos 9:20-24

Esta é a mensagem que os cristãos afirmam há cerca de 2000 anos.

Jesus pré-existia a sua encarnação. Ele é o próprio Deus.
Voluntariamente “despiu-se” dessa forma para entrar no mundo em forma humana.
Morreu crucificado pelos nossos pecados e foi sepultado.
O seu sepulcro está vazio porque ele ressuscitou!
Feliz Páscoa!